Desafio TREES: pesquisar com as comunidades transforma a compreensão das desigualdades
O TREES Challenge: Revealing Classism (2024-2025) reuniu 120 alunos de graduação e mestrado de diferentes disciplinas e de oito departamentos do país em uma experiência imersiva e colaborativa com o objetivo de criar estratégias para fortalecer a coesão social. Por meio de metodologias de pesquisa participativa, as equipes exploraram atitudes, percepções e práticas relacionadas ao classismo em contextos cotidianos.

Mais do que um exercício acadêmico, o desafio abriu um espaço para conectar pesquisa, pensamento crítico e ético e trabalho coletivo. Em vez de ver as comunidades como objetos de estudo, a metodologia de pesquisa participativa promoveu processos de diálogo e cocriação nos quais as pessoas envolvidas puderam refletir sobre as atitudes classistas e como elas reproduzem as desigualdades.
Para Irma Flores, professora associada da Faculdade de Educação da Universidad de los Andes, uma das principais contribuições dessa abordagem é que ela permite “não apenas levar um tópico como o classismo a uma comunidade, mas também conversar com essa comunidade para ver o que ela entende por classismo”. Sob essa perspectiva, a pesquisa participativa não apenas produz conhecimento, mas também fortalece o tecido social e cria relações mais horizontais entre pesquisadores e comunidades.
Assista ao vídeo e descubra por que a pesquisa participativa foi fundamental para o #RetoTREES
O desafio foi direcionado especialmente aos alunos em formação, justamente porque esse momento acadêmico pode abrir espaços para a exploração crítica e a criatividade interdisciplinar. Como destaca Paula Jaramillo, líder de ensino do TREES, é “um momento da vida em que eles podem perceber os classismos ao seu redor para tentar não reproduzi-los e também fazer algo a respeito”.
O desafio foi desenvolvido em seis fases que orientaram as equipes no projeto e na implementação da pesquisa de ação participativa em seus próprios ambientes. Ao longo do processo, os alunos identificaram e analisaram criticamente atitudes, relacionamentos, percepções e práticas que reproduzem - ou desafiam - a dinâmica do classismo na vida cotidiana. Para as duas edições do Desafio, 2024 e 2025, a última fase culminou em uma reunião presencial na Universidad de los Andes, onde as equipes compartilharam suas descobertas, discutiram suas metodologias e refletiram coletivamente.
Além de apresentar os resultados, a reunião final permitiu que os alunos conectassem a experiência prática com discussões teóricas, metodológicas e éticas sobre como fazer pesquisas com as comunidades. Como Blas Zubiría Mutis, um mentor da Universidad del Atántico, declarou durante a reunião de 2024, o processo permitiu que os participantes “vivenciassem uma experiência de pesquisa concreta, usando parâmetros estabelecidos pelo TREES e vinculando-os à reflexão teórica, metodológica e epistemológica da pesquisa participativa”. Na primeira edição do Desafio, as equipes da Universidad del Norte, Universidad del Atlántico, El Colegio de México e Universidad de los Andes desenvolveram perguntas de pesquisa, projetaram metodologias e avaliaram, juntamente com as comunidades, se esse tipo de pesquisa era significativo e útil para aqueles que participaram dela.

Os projetos desenvolvidos durante o desafio também mostraram como o classismo se manifesta em cenários cotidianos. Uma das equipes da Universidad del Atlántico investigou a dinâmica do classismo e do micro-classismo em Alameda del Río, um projeto de habitação urbana que reúne pessoas de diferentes origens socioeconômicas. Por meio de observação, entrevistas e pesquisas, a equipe identificou como as práticas cotidianas - como secar roupas nas janelas ou a presença de vendedores ambulantes - geram tensões relacionadas ao status social e às percepções de exclusividade.
A pesquisa mostrou como certos preconceitos, em relação a atividades informais e formas de habitar o espaço, refletem estereótipos e barreiras de classe que geram tensões na convivência. Além de identificar essas dinâmicas, o processo nos permitiu abrir conversas com a comunidade sobre as maneiras pelas quais essas práticas afetam as relações entre vizinhos e a percepção do “outro” dentro do mesmo território. “Por meio de pesquisas e entrevistas, reunimos percepções de exclusividade e preconceito em relação a atividades informais, como a venda ambulante. Esses resultados nos permitirão propor medidas de mitigação e promover a compreensão de atitudes classistas”, explicou Andrés Eduardo Miranda Pacheco, participante do desafio e membro da equipe do #SOMOSUA.
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O projeto Alameda del Río mostrou como o desafio não só buscava produzir dados sobre o classismo, mas também gerar processos de escuta e reflexão coletiva. Essa mesma lógica foi aplicada em outros projetos do Desafio TREES 2024, como o desenvolvido pela equipe do SINPREJUICIOS, que investigou a dinâmica do classismo em um salão de beleza em Bogotá. Com base em entrevistas e observações, a equipe identificou como as diferenças de classe entre funcionários e clientes produzem atitudes depreciativas em relação aos trabalhadores.
“Descobrimos que a atenção pessoal, a conversa com o cliente, é considerada um ‘serviço implícito’ que afeta os funcionários menos falantes. Também encontramos xenofobia e preferências de gênero entre os estilistas”, explicou María Fernanda Blanco, participante da equipe do SINPREJUICIOS. Para os membros do projeto, uma das principais lições aprendidas com o desafio foi entender a importância de humanizar as pessoas na pesquisa e não vê-las apenas como dados.
Além disso, o Desafio funcionou como um espaço para a construção de redes entre estudantes de várias regiões e contextos socioeconômicos, fortalecendo os vínculos e a aprendizagem coletiva. Valentina Gutiérrez, aluna da Universidad de la Sabana, fala sobre o que significou para ela participar do Desafio TREES 2025.
“Nessa experiência, compreendi a importância de cada disciplina, pois cada uma traz uma perspectiva diferente que enriquece e transforma a maneira como entendemos a realidade. A lição mais importante é que devemos nos desafiar constantemente e questionar quais atitudes ou comportamentos podem estar reproduzindo o classismo, mesmo quando não temos plena consciência disso.”
Essa reflexão também ressoou na experiência de Verónica Rumaña Moreno, uma estudante da Universidad de los Andes e membro da equipe. Tecido senciente. Para ela, uma das principais lições aprendidas foi entender que o classismo nem sempre se manifesta de forma óbvia. “Os comportamentos discriminatórios não são necessariamente expressos de forma explícita; eles geralmente aparecem em ações sutis que têm um impacto profundo sobre as pessoas”, disse ela.
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As descobertas das equipes também revelaram um grande desafio: o classismo costuma ser profundamente normalizado nas interações cotidianas, dificultando a identificação, a investigação e até mesmo o nome. É por isso que a metodologia de pesquisa participativa assume maior importância no Desafio TREES, pois abre espaços para ouvir e dialogar, e para que as próprias comunidades nomeiem e identifiquem o classismo em seus ambientes.
Durante mais de cinco meses, os alunos não apenas desenvolvem pesquisas sobre diferentes expressões de classismo em seus ambientes imediatos, mas também exploram maneiras concretas de reconhecer e atenuar essas atitudes que criam lacunas de desigualdade na vida cotidiana.