Perspectivas do sul global sobre justiça ambiental


A partir do TREES, criamos este especial de Justiça ambiental para incentivar essas conversas e debates. Fazemos isso com base nesta ideia: a justiça ambiental não pode ser pensada de forma isolada da justiça social.

Em vez de oferecer respostas fechadas, este especial abre um espaço para a exploração sobre as várias maneiras pelas quais a economia, a política e a vida cotidiana estão entrelaçadas nos territórios de comunidades que historicamente cuidam da natureza.

Para orientar essa jornada, organizamos o conteúdo em sete pilares temáticos, concebidos como lentes diferentes para abordar os desafios da crise socioambiental na Colômbia, que não afeta a todos igualmente. Enquanto algumas populações sofrem o impacto da degradação ecológica, outras se beneficiam dos próprios modelos extrativistas que a produzem.

Surgem, então, questões fundamentais: quais estruturas históricas e políticas de exclusão sustentam essas desigualdades ambientais? Como podemos pensar em um sistema de justiça que não apenas denuncie as assimetrias, mas que também substituir, reconhecer e priorizar as comunidades afetadas, e, ao mesmo tempo, colocando o cuidar da natureza no centro?

Por meio de vozes da pesquisa, do jornalismo, dos movimentos sociais e das instituições públicas e privadas, propomos uma conversa plural e crítica que reconheça as tensões, as contradições e também as possibilidades de transformação neste momento histórico.

Índice

1. o que queremos dizer com justiça ambiental?

A justiça ambiental não nasceu como uma extensão da agenda ecológica tradicional. Enquanto essa última tende a se concentrar na conservação da natureza, na proteção do ecossistema ou no desenvolvimento sustentável a partir de uma perspectiva institucional, a justiça ambiental surge como uma resposta social e política à distribuição profundamente desigual dos danos ambientais. Embora algumas ações sofrem o impacto dos danos ecológicosoutros se beneficiam de modelos extrativistas que os geram.

Essa desigualdade não é aleatória: historicamente, as comunidades empobrecidas e racializadas têm sido mais expostas à poluição do ar, da água e do solo, a resíduos tóxicos e a projetos extrativistas ou industriais de alto risco. Em muitas partes do mundo, morar ao lado de um aterro sanitário, de uma refinaria ou de uma rodovia movimentada não é uma questão de sorte, mas o resultado de estruturas políticas, econômicas e territoriais que beneficiam alguns setores enquanto repassam os custos da degradação ambiental para outros, com efeitos diretos sobre a saúde física e mental e, em geral, sobre a possibilidade de levar uma vida digna.

Essa consciência da distribuição desigual dos danos ambientais começou a se tornar visível nos Estados Unidos durante as décadas de 1970 e 1980. Foi nessa época que as comunidades locais, principalmente as de ascendência africana, se organizaram para denunciar como eram sistematicamente as mais afetadas pela poluição industrial, pelos depósitos de lixo tóxico e por outras formas de degradação ambiental.

O conceito de justiça ambiental surgiu das lutas das comunidades afrodescendentes nos Estados Unidos. É uma noção que vai além da proteção e da conservação ambiental: ela também exige equidade, reparações históricas e a participação ativa das comunidades nas decisões que afetam seus territórios.

Um exemplo emblemático de injustiça ambiental é o caso da Louisiana Energy Services (LES), que em 1989 obteve permissão para construir usinas de enriquecimento de urânio em áreas de alta pobreza e com uma população majoritariamente afro-americana. Esse caso, como explica Iván López em um artigo publicado na Eunômica. Revista sobre Cultura da Legalidade, foi fundamental para o desenvolvimento conceitual da justiça ambiental, destacando como as decisões sobre o risco ambiental geralmente recaem de forma desproporcional sobre as comunidades racializadas e empobrecidas.

Fonte: imagem retirada do artigo “Origem e evolução do movimento de justiça ambiental”.”.

Desde então, o conceito transcendeu suas origens locais e foi adotado por movimentos ambientais, organizações multilaterais e comunidades afetadas em várias regiões do mundo, especialmente no sul global. No início do século XXI, a justiça ambiental não se limitava mais a denunciar o racismo ambiental nos Estados Unidos: ela havia se estabelecido como uma ferramenta crítica para analisar como as relações entre poder, território, desigualdade e meio ambiente geram impactos desiguais em diferentes grupos sociais.

Atualmente, essa lente é aplicada em contextos tão diversos quanto:

  • O Amazônia brasileira, onde os povos indígenas, como os Mundurukú resistir à mineração ilegal e às barragens hidrelétricas que ameaçam seus territórios.
Foto de: https://www.dw.com/de/illegale-abholzung-und-bergbau-bedrohen-gemeinden-im-amazonasgebiet/a-45656372.
  • O periferias urbanas na América Latina, como Vila Inflamável em Buenos Aires oIztapalapa na Cidade do México, onde as comunidades vivem expostas à poluição do ar, da água e do solo.
Foto de: https://elpais.com/internacional/2018/02/14/argentina/1518638112_243046.html.
Fórum de: https://gacetadeiztapalapa.com.mx/en-iztapalapa-debemos-erradicar-los-tiraderos-a-cielo-abierto-fortalecer-al-personal-de-limpia-y-mejorar-la-infraestructura/.
  • O desertos africanos, como em Níger, onde a mineração de lítio deslocou comunidades.
Foto de: https://es.euronews.com/green/2024/12/12/el-lado-oscuro-de-la-mineria-de-litio-en-nigeria-pobreza-infantil-y-explotacion-laboral.
Extraído de: https://www.infobae.com/america/the-new-york-times/2020/02/17/el-paraiso-natural-que-esconde-la-muerte-a-causa-de-la-construccion-de-represas/.
Extraído de: https://www.worldwildlife.org/descubre-wwf/historias/cumbre-amazonica-debe-resultar-en-compromiso-coordinado-y-efectivo-de-los-paises-para-la-conservacion-del-bioma-y-el-desarrollo-sostenible.

2. formas em que a injustiça ambiental é expressa

As desigualdades ambientais não se limitam ao nível local: elas também se manifestam em escala global. O sul global - entendido como as regiões historicamente marginalizadas do poder econômico e político, como a América Latina, a África e grande parte da Ásia - suporta o peso da degradação ambiental, apesar de ter contribuído muito menos para suas causas.

De acordo com o Relatório mundial sobre a qualidade do ar do IQAir, nove dos dez países com a pior qualidade do ar estão no sul global, enquanto os principais emissores históricos, como os Estados Unidos, a Alemanha ou o Reino Unido, não aparecem nessa lista. Essa disparidade revela um padrão estrutural de distribuição desigual de ônus e responsabilidades ambientais.

De acordo com esse relatório, 9 dos 10 países com a pior qualidade do ar estão no sul global:

  1. 🇹🇩 Chad.
  2. 🇧🇩 Bangladesh.
  3. 🇵🇰 Paquistão.
  4. 🇨🇩 República Democrática do Congo.
  5. 🇮🇳 Índia.
  6. 🇹🇯 Tajiquistão (o único país do Norte Global na lista).
  7. 🇳🇵 Nepal.
  8. 🇺🇬 Uganda.
  9. 🇷🇼 Ruanda.
  10. 🇧🇮 Burundi.

Isso pode ser visto, por exemplo, na forma como muitos países do norte global reduziram seus impactos ambientais locais ao transferir atividades poluentes, resíduos ou demandas extrativistas para outras regiões. Embora internamente eles consigam garantir melhores condições de vida - como ar mais limpo, acesso a espaços verdes ou regulamentações rigorosas - sua pegada ecológica é projetada no sul global, onde se concentram os ônus associados à extração de recursos, à produção industrial ou ao descarte de resíduos.

Alguns exemplos ilustram essa dinâmica:

  • Em América Central, As comunidades indígenas e camponesas enfrentam secas e tempestades cada vez mais extremas como resultado das mudanças climáticas.
  • Em Colômbia, O povo U'wa, que habita territórios de páramo no nordeste do país, resiste à expansão do petróleo há décadas. Para essa comunidade, a terra é sagrada e o petróleo é “o sangue da terra”, portanto, sua defesa articula dimensões espirituais, ambientais e políticas.
  • Em África, O aumento dos agrocombustíveis elevou o preço dos alimentos, com sérias repercussões para a segurança alimentar local.
  • Em Ásia, A produção maciça de óleo de palma na Indonésia levou ao desmatamento e a uma perda significativa de biodiversidade.

Até mesmo algumas estratégias promovidas por organizações internacionais, que em princípio buscam mitigar as mudanças climáticas, geraram tensões significativas. Um exemplo é REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), um mecanismo que promove a conservação de florestas tropicais como forma de sequestro de carbono, permitindo que países ou empresas compensem suas emissões por meio de projetos florestais no sul global.

No entanto, embora organizações internacionais como a ONU, o Banco Mundial e governos doadores do Norte Global tenham promovido o REDD+ como uma solução climática, em vários contextos esse mecanismo foi questionado por comunidades indígenas e afrodescendentes em países como Colômbia, Brasil e Peru, que denunciam que ele foi implementado sem consulta prévia ou participação plena. Essas comunidades apontaram que o mecanismo pode reforçar as desigualdades no acesso, controle e distribuição dos benefícios derivados das florestas. Em alguns casos - conforme relatado por organizações indígenas amazônicas reunidas na COICA - os projetos provocaram deslocamentos ou restringiram modos de vida tradicionais, em nome da conservação imposta externamente.

No TREES, fizemos este vídeo no qual os participantes são Juan Camilo Cardenas, Professor e pesquisador da Faculdade de Economia da Universidad de los Andes, e Julia Miranda, Representante na Câmara dos Deputados e ex-diretor dos Parques Nacionais da Colômbia. Na conversa, eles analisam o mercado de carbono e o escopo e as limitações atuais dos mecanismos de REDD+ na Colômbia. Você pode assistir aqui:

A crise socioambiental na Colômbia não afeta a todos igualmente. Enquanto algumas populações sofrem o impacto dos danos ecológicos, outras se beneficiam dos modelos extrativistas que os geram. Como explicar esse paradoxo? Que estruturas de exclusão continuam a reproduzir a desigualdade ambiental no país? E, acima de tudo, o que significaria avançar em direção a uma justiça ambiental que repare, reconheça e priorize as comunidades afetadas, colocando o cuidado com a natureza no centro?

Diante desses desafios, surgiram várias estratégias, debates e propostas com o objetivo de reconfigurar a relação entre a sociedade e a natureza a partir de perspectivas mais justas e sustentáveis. Nesta seção especial, propomos mapear algumas dessas questões-chave:

  • Como é possível promover uma transição ecológica que não reproduza ou amplie as desigualdades sociais existentes?
  • Quais modelos de desenvolvimento, governança e produção de conhecimento estão atualmente em disputa nesse processo?
  • Qual é o papel dos diferentes atores sociais, políticos e econômicos na formação de um futuro mais justo?

Para lidar com essas tensões, organizamos o conteúdo em sete pilares temáticos, cada um dos quais oferece um ponto de partida específico para pensar sobre os vínculos entre justiça ambiental, conhecimento e ação coletiva.

3. sete pilares para pensar sobre justiça ambiental

Pilar 1: Desigualdades na vida cotidiana: o caso do Furacão Iota

A fim de mostrar como as comunidades sofrem os impactos das mudanças climáticas de forma desigual, neste artigo especial analisamos o caso do furacão Iota em Providencia. Em novembro de 2020, esse fenômeno - o primeiro furacão de categoria 5 a atingir o arquipélago - deixou uma marca profunda na vida da comunidade de Raizal. Esse evento foi mais do que uma tragédia natural: significou uma ruptura na infraestrutura, na economia e na cultura locais. Para entender melhor essas consequências do ponto de vista da comunidade, conversamos com June Marie Mow, diretora da Providence Foundation, que compartilhou como a ilha enfrentou esse processo de reconstrução e resiliência.

As consequências foram devastadoras: casas destruídas, vegetação arrasada e uma comunidade enfrentando perdas materiais, impacto emocional e transformações dolorosas em seus modos de vida. O processo de reconstrução subsequente também revelou profundas desigualdades: muitas decisões foram tomadas sem a participação local, casas foram construídas em áreas de risco e práticas culturais importantes, como a coleta de água em cisternas, foram perdidas. Para aqueles que vivem na ilha, o impacto do furacão persiste nas formas como o território é habitado, decidido e reconstruído atualmente.

Para contar essa história, criamos um infográfico ilustrado. Dê uma olhada aqui:

De acordo com a análise BID Multi-Colômbia, Na “Colômbia Vulnerável”, à qual pertencem regiões como San Andrés e Providencia, mais de 58 % da população tem pelo menos uma necessidade básica insatisfeita, e apenas 36,8 % têm acesso a água de qualidade. Em contraste, departamentos como Bogotá, Antioquia ou Valle del Cauca - parte da “Colômbia Consolidada” - registram 93,7 % de acesso a água de qualidade, juntamente com níveis muito mais baixos de pobreza multidimensional.

Esse contraste permite analisar como as condições estruturais determinam a maneira como uma emergência é vivenciada. Uma comparação com territórios mais robustos em termos de infraestrutura, serviços básicos e capacidade institucional poderia mostrar diferenças notáveis na velocidade da resposta, no acesso à ajuda humanitária e na possibilidade de reconstrução.

Mesmo assim, a comunidade não parte apenas de suas deficiências, mas também de suas capacidades. Em Providencia, organizações como a Providence Foundation trabalharam para fortalecer a propriedade local do gerenciamento de riscos e promover a participação ativa nos processos de reconstrução.

Em contextos nos quais o Estado propõe soluções externas, muitas vezes sem consulta prévia e sem conexão com a realidade cultural e ambiental, a resiliência não é algo imposto de fora: ela é fortalecida no território, com base na memória e na organização coletivas.

Pilar 2: Pesquisa sobre justiça ambiental no sul global

Para o TREES, é essencial disseminar conhecimentos rigorosos que ampliem a visão das desigualdades do sul global. O desafio não é apenas estudar os problemas, mas fazê-lo usando estruturas, perguntas e metodologias inovadoras que respondam a contextos específicos, envolvam as comunidades afetadas e dialoguem com debates globais.

Nesse sentido, o economista María Alejandra Vélez, A Dra. Kathryn, professora sênior da Faculdade de Economia da Universidad de los Andes, pesquisou as tensões que surgem quando os mercados de carbono e os projetos de REDD+ são implementados em territórios com baixa capacidade estatal e pouca participação da comunidade. Em sua pesquisa estudos sobre REDD+, Vélez Lesmes e colegas Os pesquisadores da área de desenvolvimento de projetos de desenvolvimento de recursos naturais da América Latina e do Caribe têm apontado que surgem tensões entre aqueles que promovem esses projetos e as comunidades envolvidas. Essas tensões, em muitos casos, levam a um profundo questionamento por parte dos líderes locais sobre a governança de seus territórios. Embora não tenham sido documentadas em entrevistas formais, elas refletem a preocupação que essas comunidades geralmente expressam quando a informação e a participação são deixadas de lado.

Por outro lado, um estudo recente, conduzido por Carolina Castro, O relatório destaca que os projetos de REDD+ implementados no Pacífico colombiano tiveram efeitos significativos na redução do desmatamento e das colheitas ilícitas nas comunidades afro, em comparação com aquelas que não participaram desses programas.

Neste filme de pesquisa, produzido como parte deste recurso especial, o professor Vélez explica em detalhes os mecanismos de REDD+, bem como seu escopo e limitações atuais. Assista aqui:

De outra perspectiva, o economista Juan Camilo Cárdenas, professor da Faculdade de Economia da Universidad de los Andes, passou mais de duas décadas projetando metodologias experimentais para entender e abordar conflitos socioambientais complexos. Em casos como o Páramo de Santurbán, Nesse projeto, seu trabalho consistiu em recriar, por meio de jogos e simulações, os dilemas enfrentados por fazendeiros, mineradores, funcionários públicos e moradores urbanos em relação ao uso da água e aos impactos da mineração. O objetivo não é oferecer uma fórmula técnica para resolver o conflito, mas criar espaços de confiança, empatia e ação coletiva.

Em um momento em que abundam soluções técnicas e compromissos globais para um mundo mais sustentável, esse pilar enfatiza a necessidade de produzir conhecimento que dialogue com os territórios e com aqueles que vivenciam diretamente as consequências da crise socioambiental, ao mesmo tempo em que é relevante para o debate global.

Pilar 3: Da sala de aula: professores ensinando justiça ambiental

Como ensinar justiça ambiental em salas de aula dominadas por números, gráficos e curvas de oferta e demanda? O recurso pedagógico, Mudanças climáticas na sala de aula: uma exploração experimental do mercado competitivo, projetado por Juan Camilo Cárdenas, Karen Castro e Sergio Díaz, propõe um caminho a seguir: transformar a sala de aula em um mercado de carros vivo, com vendedores, compradores e contratos que, após várias rodadas, revelam não apenas quem ganha e quem perde, mas também quem arca com os custos ocultos.

A simulação começa como um mercado competitivo convencional: os alunos negociando preços e maximizando os lucros. No entanto, a verdadeira lição surge quando os custo ambientalCada transação envolve um desconto coletivo que todos devem pagar, independentemente de terem participado ou não.

O entusiasmo inicial se transforma em debate: O que significa negociar em um mundo que é impulsionado por externalidades como as mudanças climáticas?

Essa mudança pedagógica transforma a teoria em experiência. A sala de aula deixa de ser um espaço abstrato e se torna um laboratório de justiça ambiental, onde a tensão entre eficiência e equidade, entre interesse individual e responsabilidade coletiva, é posta à prova. Refletindo sobre suas experiências, os alunos descobrem que as decisões econômicas nunca são neutras: elas sempre redistribuem benefícios e custos, e quase sempre o fazem de forma desigual.

Pilar 4: O papel das empresas na justiça ambiental

O setor empresarial é um dos atores que mais influenciam a configuração dos territórios. Sua influência não se limita à sua capacidade econômica, mas também se manifesta nas consequências de suas decisões sobre o uso da terra, o acesso aos recursos naturais e a transformação da dinâmica territorial, ou seja, as relações sociais, culturais, ecológicas e econômicas que sustentam a vida em um lugar. Esse impacto é particularmente evidente em áreas rurais, áreas de fronteira extrativista ou regiões com alta biodiversidade, onde as operações comerciais podem redefinir profundamente as formas de viver, produzir e decidir.

Portanto, o papel do setor privado na justiça ambiental não se restringe apenas à mitigação de danos. Implica transformar suas formas de operar e assumir explicitamente a responsabilidade pelos efeitos sociais e ecológicos de suas atividades. Como Laura Barajas, pesquisadora da Fundación Ideas para la Paz, destaca no relatório O potencial das empresas para transformar territórios (2023): “as empresas não devem apenas intervir para reduzir os impactos, mas participar ativamente da construção do bem-estar coletivo nos locais onde operam”.

Na América Latina, a discussão sobre sustentabilidade corporativa evoluiu para uma visão que reconhece a responsabilidade social, ética e ambiental como parte inseparável da gestão organizacional. Como Miguel Muriel, professor da SEK International University, Faculdade de Ciências Sociais e Jurídicas, ressalta, em uma análise regional sobre sustentabilidade, Os negócios sustentáveis são absolutamente compatíveis com o desenvolvimento social e econômico“ e exigem uma transformação dos modelos tradicionais de produção para processos ”alinhados com o bem-estar da sociedade“ e a ”preservação do meio ambiente“.

Essa abordagem - cada vez mais adotada por empresas conscientes do atual contexto ambiental - propõe que a eficiência e a justiça ambiental não são mundos separados, mas práticas que devem ser integradas ao próprio planejamento empresarial.

Uma das empresas que tem procurado seguir nessa direção é o Grupo Argos, um conglomerado ou holding focado no setor de infraestrutura, com investimentos em setores-chave como energia (Celsia), cimento (Cementos Argos), concessões de estradas e aeroportos (Odinsa) e desenvolvimento urbano. Sua atividade tem impactos diretos sobre o solo, a água e a biodiversidade, mas também sobre as comunidades onde opera. Nos últimos anos, a empresa começou a implementar estratégias de sustentabilidade com foco na redução de emissões, economia circular e diálogo territorial.

Para este especial, conversamos com Ana María Uribe, gerente de sustentabilidade do Grupo Argos, para descobrir como uma empresa com alto impacto territorial na Colômbia está repensando suas estratégias a partir de uma perspectiva de sustentabilidade ambiental e responsabilidade social. Saiba mais aqui:

Os avanços na sustentabilidade corporativa coexistem com modelos de negócios que geram impactos sociais e ambientais significativos, principalmente em territórios historicamente marginalizados. Esse panorama levanta questões que convidam a uma análise mais aprofundada:

  • Em que condições uma estratégia de negócios pode ser considerada sustentável quando envolve a intensificação do uso de bens comuns, como água ou terra?
  • Quais critérios seriam relevantes para avaliar o compromisso ambiental de uma organização além da conformidade regulatória ou da publicação de relatórios voluntários?
  • Que transformações institucionais, econômicas e organizacionais seriam necessárias para que a sustentabilidade se traduzisse em práticas consistentes com os princípios de justiça ambiental?

Pilar 5: Abrindo a conversa: o papel do jornalismo

Que papel ela desempenha na construção da justiça ambiental?

Essa foi a pergunta que orientou nossa conversa com Andrés Bermúdez, que demonstrou como o jornalismo ambiental não é apenas uma ferramenta de informação ou divulgação, mas também um exercício de monitoramento democrático: uma prática que observa, questiona e acompanha o poder - institucional, corporativo e político - para exigir transparência, responsabilidade e proteção dos direitos coletivos, especialmente em contextos de alto conflito socioambiental.

Ao longo de sua carreira, Bermúdez documentou profundas tensões entre megaprojetos apresentados como sustentáveis e os direitos das comunidades que enfrentam seus impactos.

Um caso emblemático é o projeto de crédito de carbono em Cumbal, Nariño, investigado pela Conflict Roads. Descobriu-se que uma das comunidades indígenas envolvidas, apesar de habitar o território e realizar trabalhos de conservação, desconhecia a existência do projeto, as transações de títulos já realizadas e até mesmo os benefícios econômicos que deveria ter recebido. A investigação revelou falhas graves nas salvaguardas sociais, conflitos de interesse entre as empresas executoras e as empresas de auditoria, bem como uma supervisão estatal deficiente.

Como adverte Bermúdez, sem uma regulamentação rigorosa e a participação informada das pessoas, o mercado de carbono pode reproduzir esquemas de desapropriação sob a linguagem da sustentabilidade.

Leia mais sobre nossa conversa com Andrés Bermúdez aqui:

Reportagens como a de Bermúdez ilustram como o jornalismo pode exercer pressão legítima sobre os agentes econômicos e políticos que tomam decisões em nome do meio ambiente.

Essa tarefa é particularmente relevante na América Latina, onde os conflitos ambientais estão entrelaçados com desigualdades históricas. Nesse contexto, o jornalismo ambiental não apenas informa: ele abre brechas nos consensos dominantes, questiona o uso estratégico da linguagem verde e amplia o debate público sobre o significado de uma transição justa.

Pilar 6: Aprendendo com os outros: justiça ambiental na sala de aula

Embora a justiça ambiental seja frequentemente associada a debates técnicos ou mobilizações sociais, ela também é construída em espaços educacionais. Um número cada vez maior de estudantes universitários está participando ativamente dessa conversa, não apenas em sala de aula, mas também por meio de trabalho de campo, análise crítica e produção colaborativa de conhecimento junto com as comunidades em seus territórios.

Um exemplo disso é o exercício realizado pelos alunos da Fazendo Economia 2, uma aula da Faculdade de Economia da Universidad de los Andes, em parceria com Pólen Apenas transições, um think tank colombiano especializado em transições de energia justas, inclusivas e viáveis. Lá, os alunos avaliaram e tornaram visível o impacto de um dos projetos de Pólen Apenas transições em La Guajira.

Sua participação transcendeu a dimensão acadêmica para se tornar uma contribuição à transformação das narrativas sobre desenvolvimento e mudança climática. Um dos resultados mais valiosos foi a decisão de concentrar a análise nas histórias de vida, uma estratégia que permitiu que os impactos do projeto fossem contados a partir da perspectiva daqueles que os vivenciam diariamente.

Saiba como foi a experiência dessa iniciativa aqui:

A participação dos alunos em processos de pesquisa e intercâmbio com as comunidades não apenas enriquece sua formação acadêmica, mas também transforma as maneiras pelas quais entendemos o conhecimento e sua relação com os territórios. Em um contexto como o da América Latina, o trabalho com as comunidades nos permite questionar as hierarquias tradicionais do conhecimento e reconhecer que as soluções não vêm apenas de laboratórios, bancos de dados ou modelos teóricos.

Esse tipo de prática de treinamento também nos convida a repensar o papel da universidade. Mais do que um espaço para a transmissão de conhecimento técnico, ela pode ser uma ponte entre diferentes tipos de conhecimento: o das ciências, mas também o das comunidades, dos territórios e dos corpos.

O compromisso com uma universidade que ouve, colabora e está eticamente envolvida nos processos que investiga é uma forma de ampliar as estruturas da justiça ambiental. Não se trata apenas de incluir casos locais nos cursos, mas de gerar canais reais de diálogo, nos quais as perguntas não são formuladas de cima para baixo, mas emergem do encontro entre diferentes formas de entender o mundo e de habitar o meio ambiente.

Pilar 7: Pensar em políticas públicas a partir da perspectiva da justiça ambiental

Falar sobre justiça ambiental no campo das políticas públicas implica transformar a maneira como concebemos o desenvolvimento, o bem-estar e a gestão territorial. Não basta incorporar critérios ambientais aos planos governamentais: é importante reconhecer que as desigualdades sociais, econômicas e ecológicas estão profundamente interligadas e que não é possível avançar em direção à justiça ambiental sem abordar essas desigualdades desde a concepção das políticas.

Com essa ideia em mente, a TREES fez uma parceria com Reimaginando, um coletivo que promove espaços de diálogo, colaboração e ação entre acadêmicos, artistas, ativistas, empresas, governos e cidadãos, para disseminar uma recomendação de política pública com foco na justiça ambiental. Essa proposta surge da Diálogos Territoriais sobre Desigualdade, A dimensão ambiental não apareceu como uma questão isolada, mas como parte integrante das condições sociais, econômicas e políticas que moldam os territórios.

Desses diálogos surgiu o documento 24 recomendações de políticas para a construção da equidade na Colômbia”.”. Ele estabelece um caminho para abordar essas tensões a partir da perspectiva dos sistemas alimentares. A proposta baseia-se em uma pergunta provocativa: por que há fome em territórios férteis?

Com base nesse questionamento, a recomendação argumenta que repensar a maneira pela qual os alimentos são produzidos, distribuídos e acessados pode ser uma forma de enfrentar a exclusão no campo colombiano e avançar em direção a uma transição ecológica justa que reconheça o conhecimento local, a autonomia territorial e a interdependência entre justiça social e ambiental.

A recomendação propõe políticas destinadas a fortalecer as redes de produção, transformação e consumo com uma abordagem territorial, na qual os camponeses, os povos indígenas e as comunidades afrodescendentes desempenham um papel de liderança. Não se trata apenas de produzir alimentos, mas também de garantir autonomia, emprego rural decente e saúde territorial.

Esse tipo de compromisso mostra que fazer justiça ambiental por meio de políticas públicas não significa limitar-se a gerenciar riscos ou responder a emergências climáticas quando já é tarde demais. Implica conceber o Estado não apenas como um aparato que intervém a partir do centro, mas como um ator que ouve, acompanha e co-constrói com aqueles que vivem nos territórios. Isso implica estabelecer relações mais horizontais entre instituições e comunidades e reconhecer que a sustentabilidade não é imposta de cima para baixo: ela é construída com tempo, confiança e reciprocidade.

Uma democracia que amplia as vozes que contam e redistribui o poder para que as decisões que afetam os territórios não sejam tomadas de longe ou sem consulta, mas com a participação efetiva daqueles que sustentam a vida neles.

4. Conclusão: entrelaçando o social e o ambiental

Este relatório especial abriu uma conversa sobre as múltiplas formas de se pensar a justiça ambiental. Essa jornada propõe entender a justiça ambiental não como uma questão isolada, mas como um convite para transformar nossas formas de habitar, decidir e conviver com os territórios, com base no reconhecimento das desigualdades históricas e na escuta ativa daqueles que as enfrentam todos os dias.

Para fortalecer a conversa, tivemos um fórum no qual Julia Miranda, representante da Câmara dos Deputados; Argenis García Valencia, sociólogo e líder afro-colombiano; Juana Hoffman, diretora técnica da Amazon Conservation Team Colombia; e Juan Camilo Cárdenas, cofundador da TREES, discutiram as tensões e os mecanismos que promovem ou limitam a justiça ambiental. Você pode assistir ao webcast ao vivo aqui:

Ao longo deste artigo especial, ilustramos as conexões entre justiça ambiental, justiça social, justiça epistêmica e justiça climática. Essas conexões baseiam-se no reconhecimento de que a conservação não é suficiente se os benefícios e os custos não forem redistribuídos; que a proteção dos ecossistemas também implica a proteção daqueles que os habitam e cuidam deles; e que não se pode falar em sustentabilidade enquanto se mantiver a exclusão de vozes e experiências que foram historicamente silenciadas. Em vez de oferecer respostas únicas, esta conversa nos convida a pensar coletivamente sobre como construir transições que não apenas reduzam os impactos ambientais, mas também ampliem os direitos, reconheçam os diversos conhecimentos e transformem a maneira como nos relacionamos com os territórios.

É assim que ele diz Juana Hoffman, advogada e diretora técnica da Amazon Consevation Team Colombia, em nossa conversa:

Nesse sentido, a justiça ambiental exige transformações estruturais nas políticas e na distribuição de poder, mas também uma ética cotidiana que entenda o futuro não como um destino fixo, mas como um espaço em constante construção e debate.

A justiça ambiental não é um ponto de chegada ou uma agenda fechada: é uma conversa aberta, alimentada pelo intercâmbio entre atores, disciplinas e territórios. Muitas das experiências reunidas aqui mostram que esse processo já está em andamento. O que resta é continuar ouvindo, aprendendo e agindo com responsabilidade coletiva.

Bibliografia